parti. reparti-me de novo. essas idas sempre exigem esse retorno a célula, essa condição em que se é completo e se é dois, agora três. já faz mais de um ano que eu vivo aqui, nessa cidade de são paulo. aqui mais do que em qualquer lugar me encontro, diariamente, abafando os gritos da adolescência e deixando brotar a película que me protegerá do mundo. aprendi que minhas bolas são minhas e não posso transferir a coragem aos outros. cansei dessa minha postura de quem não tinha medo. agora eu tenho, e assumo, e corro os riscos. tenho certeza que não se trata de artefato exclusivo da cidade, fui eu quem entrou nesse mundo dos “adultos” pelas portas daqui, poderia ter passado por ela em qualquer lugar. entrei e descobri o que já imaginava, adultos não existem. sim. fui enganada uma vida inteira, projetando a ética e a responsabilidade nos mais velhos que eu. ilusão jovem… a ganância realmente impera, o buraco é mais embaixo… racismo, homofobia, preconceito de gênero…são exemplos que hiperbolizam todas as pequenas injustiças que aos poucos cada um na sua hipocrisia vital aprende a auto justificar em nome da sua viagem de esqui em aspen. mundo mundo vasto mundo, no meio do caminho tinha uma pedra e eu caí. dei de boca na areia, perdi os dentes e voltei a infância, desesperada tentativa de renunciar a tudo isso. preciso ser forte. minhas bolas estão comigo, são dois pares de seios pequenos que fazem o meu peito mais inflado, redobram a minha coragem. prepare-se, mundo. eu não vou desistir.